sexta-feira, 16 de maio de 2008

Reformaram o português








por thiago freitas



Esperava-se de tudo. A Reforma Tributária, que não veio; a Reforma Agrária, que não veio; a Reforma Política, que também não veio, pelo menos não como era esperada... Mas veio a Reforma Ortográfica, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em março deste ano. E neste mês, o Ministério da Educação (MEC) publicou, no dia 8, uma resolução no Diário Oficial exigindo que os livros didáticos que serão comprados para as escolas públicas a partir de 2010 estejam de acordo com as novas normas ortográficas da Língua Portuguesa. Além disso, o ministério já autorizou as editoras a fazerem essa adaptação a partir de 2009, apesar de ainda não ser obrigatória. Mas afinal, o que muda de agora em diante?

Se as mudanças são ou não necessária, só o tempo e o uso (ou não-uso) das novas regras por parte dos falantes da língua poderão dizer. A polêmica, contudo, já está instalada e divide opiniões entre os mestres da filologia, professores, escritores, jornalistas, estudantes, enfim, entre todos que falam e escrevem na língua de Luis de Camões.

Agora se escreve assim:

Caso um aluno do Ensino Fundamental ou Médio perguntar ao professor se, por exemplo, “lingüiça” se escreve com trema ou sem trema, ou ainda, se “herói” possui ou não acento agudo, não precisará se espantar se a resposta for: “linguiça”, sem trema, e “heroi”, sem acento. Essas são algumas das mudanças previstas pelo Acordo Ortográfico ora em debate. Parece esquisito, mas foi igualmente estranho em 1971, quando outra reforma na Língua Portuguesa deu cabo dos acentos circunflexos diferenciais de timbre, passando, portanto, a se escrever “ele”, “olho”, “gosto”, “este” em vez de “êle”, “ôlho”, “gôsto”, “êste”, como o era antes.

Nesta reforma atual, em que se pretende unificar a grafia dos vocábulos entre os países de Língua Portuguesa, estão previstas as seguintes modificações (ver grágico abaixo) para o português no Brasil, que deverão constar em todos os livros didáticos a partir de 2010, embora passem a vigorar já em janeiro do próximo ano:



Para Portugal, também haverá mudanças: desaparecerão o “c” e o “p” de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “acção”, “acto”, “adopção”, “óptimo” (se tornaram, portanto, “ação”, “ato”, “adoção”, “ótimo”); será eliminado o “h” de palavras como “herva” e “húmido”, que serão grafadas como no Brasil, “erva” e “úmido”.

Temos acordo (ou não?)

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado entre os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos esses países, oito ao todo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe e Timor Leste - este último aderiu ao acordo em 2004.

A proposta visa a instituir uma ortografia única oficial da Língua Portuguesa e com isso aumentar o prestígio internacional, dando fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes: uma no Brasil e a outra nos demais países supracitados.

Atualmente, segundo estudos, o português é quinta língua mais falada no mundo, tendo cerca de 230 milhões de pessoas se comunicando através dela (190 milhões só no Brasil). Por causa de algumas diferenças ortográficas, existe uma dificuldade de estabelecer a língua como um dos idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU), onde é necessária a tradução dos documentos para as suas duas variantes.

A adaptação proposta pelo Acordo Ortográfico acarretará alterações na grafia de cerca de 1,6% do total de palavras na norma européia e cerca de 0,5 a 2,0% na brasileira. Por essas e outras razões, ele é rejeitado por muitos lingüistas (olha o trema aí, gente!), escritores e outras personalidades que discordam da sua aplicação por motivos políticos, lingüísticos, econômicos ou jurídicos.

A razão da demora em se aprovar este acordo deve-se à relutância de alguns países, como Portugal, em ratificar o que foi acordado em 1990. Até julho de 2004, era preciso que todos os países membros da CPLP ratificassem as novas normas, mas um acordo feito nessa data estabeleceu que bastaria a ratificação por parte de três países. Em 1995, o Brasil efetivou sua ratificação, seguido de Cabo Verde, em fevereiro de 2006, e São Tomé e Príncipe, em dezembro. Faltava Portugal adaptar sua legislação às novas regras, o que foi feito hoje, em sessão planária do parlamento português.

Outras histórias

Até o início do século XX, tanto em Portugal como no Brasil, seguia-se uma ortografia que, por regra, se baseava nos étimos latino ou grego para escrever cada palavra (ex.: pharmacia, lyrio, orthographia, diccionario etc.)

Em 1911, no seguimento da implantação da república em Portugal, foi levada a cabo uma profunda reforma ortográfica que modificou completamente o aspecto da língua escrita, aproximando-o muito da atual. No entanto, esta reforma foi feita sem qualquer acordo com o Brasil, ficando os dois países com duas ortografias completamente diferentes.

Ao longo dos anos a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras foram protagonizando sucessivas tentativas de estabelecimento de uma grafia comum a ambos os países. Em 1931 foi feito um primeiro acordo, no entanto, como os vocábulos que se publicaram, em 1940 (em Portugal) e 1943 (no Brasil), continuavam a conter algumas divergências, realizou-se um novo encontro que deu origem ao Acordo Ortográfico de 1945. Este se tronou lei em Portugal, mas no Brasil não foi ratificado pelo Congresso Nacional, continuando os brasileiros a regular-se pela ortografia do vocabulário de 1943.

Novo entendimento ente Brasil Portugal e Brasil – efetivo em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal – aproximou um pouco mais a ortografia dos dois países, suprimindo-se os acentos gráficos responsáveis por 70% das divergências entre as ortografias.

À época, resistências semelhantes às de agora foram manifestadas. Escreveu, por exemplo, o jornalista Lago Burnett: “Feita a toque de caixa, com base na Lei nº 5.756, de 18 de dezembro de 1971, a mais recente reforma ortográfica, mal entrou em execução, permitiu que se detectasse um sem-número de palavras que, além da exceção oficialmente consentida do ‘pôde’, não podem passar sem o [acento] diferencial. (...) Descobri, por acaso, que a simples eliminação do artigo ou outra partícula antes de certas palavras contribui para torná-la carentes de acentuação. Gôsto de barro na manhã molhada. Tirem o circunflexo diferencial da primeira palavra (um substantivo) e eis-me reduzido, pelo verbo, a uma vítima de verminose, ansioso por encher de terra o ventre inflamado”.

Ironias à parte, ainda assim as tentativas de acordo entre Brasil e Portugal não pararam por aí. Novas vieram em 1975 e 1986, mas não vingaram, a primeira devido ao período de convulsão política que se vivia em Portugal, o PREC; a segunda devido à reação que se levantou em ambos os países, principalmente a propósito da supressão da acentuação gráfica nas palavras esdrúxulas (ou proparoxítonas).

No entanto, como, segundo os proponentes da unificação, a persistência de duas ortografias da Língua Portuguesa impede a unidade intercontinental do português e diminui o seu prestigio no mundo, em 1990 foi feita a nova reunião e lavrado um novo acordo, menos ambicioso e atendendo às criticas feitas às propostas de 1986.

Novas pressões

A atual reforma também vem sendo questionada. Em Portugal, ela sofre fortes pressões para que não seja aprovada, como a do Manifesto Contra o Acordo Ortográfico, online desde 2 de maio, que já reúne 33 mil assinaturas e foi entregue ontem ao presidente da Assembléia da República do país, onde a proposta da reforma foi votada pelo parlamento de Portugal.

No Brasil, mesmo que já aprovada, fala-se mais em custos e prejuízos que o acordo provocará ao mercado editorial. O governo brasileiro é um dos maiores compradores de livros didáticos do mundo. Só no ano passado, foram mais de 120 milhões de exemplares. Contudo, só o trabalho de preparação e revisão de cada livro, para as editoras, pode custar em média cerca de R$ 5 mil. A reforma levaria à súbita obsolescência de dicionários, gramáticas e livros escolares. Mas há quem já esteja se adaptando no universo virtual, como o Priberam, dicionário online, cujas novas versões e ferramentas já estão sendo atualizadas de acordo com as novas normas ortográficas.

Entrevista / Eraldo Maia

Eraldo Maia, estudioso apaixonado pela Língua Portuguesa, é professor da Fundação Educacional da Região dos Lagos (Ferlagos) e leciona também nas séries do Ensino Médio em escolas de Arraial do Cabo. Em entrevista exclusiva ao Lagos Alternativa, ele fala da posição pessoal que tem a respeito da reforma, tendo ele próprio acompanhado como professor (leciona desde 1968) a reforma de 1971. A exemplo da última, acredita, “tudo será uma questão de tempos para que todos se habituem às novas regras”.

LA - Como professor e estudioso da Língua Portuguesa, qual é a sua posição a respeito desse Acordo Ortográfico?

Eraldo -
Se o Acordo Ortográfico proposto realizar seu maior objetivo, o sonho do filólogo Antônio Houaiss, qual seja o de uniformizar a grafia das palavras de nossa língua nos oito países cujo idioma nacional é o português, terá sido, sem dúvida, conveniente sua implementação.

LA - O senhor acha realmente que este acordo vai simplificar a comunicação entre os países de Língua Portuguesa, ou ele não se faz necessário?

Eraldo -
É claro que, sendo medida relacionada à modalidade escrita da língua, havendo uma grafia uniforme das palavras em todos os países que fazem parte da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), a comunicação em registro escrito pode tornar-se mais ágil e mais precisa.

LA - Qual a maior dificuldade em se implementar mudanças desse tipo entre os usuários da língua?

Eraldo -
Trata-se de uma questão de tempo. Aos poucos, os que se valem da modalidade escrita da língua vão familiarizando-se com as novas normas ortográficas. A princípio, parecerá estranho grafar "antirrábico" e não "anti-rábico". Parecerá estranho, porém, para os já alfabetizados, uma vez que os alfabetizandos não sentirão estranheza alguma. Com o passar do tempo, já não se estranhará a nova grafia.

LA - A partir de agora, nas salas de aula, que são os locais por onde as novas regras ortográficas vão realmente começar, como fica? Qual deve ser a postura dos professores de Língua Portuguesa?

Eraldo -
Os professores devem começar a fornecer informações aos seus alunos sobre o conteúdo do Acordo Ortográfico, lembrando sempre que não é, exatamente, mudança na língua, mas tão-somente na transcrição gráfica de seus elementos lexicais, as palavras.

LA - Pelo que o senhor tem observado nas escolas, qual é a posição das pedagogas, diretoria, professores... As escolas já cogitam começar a se adaptar a isso? E nos concursos públicos, como ficam as questões de acentuação, colocação do hífen, o uso do trema (que já tentaram matar várias vezes, mas não morreu). O que passa a valer para as bancas?

Eraldo -
Pelo que percebo na minha experiência de docência superior e no Ensino Médio, as escolas ainda não estão levando em considerando prioritária a questão do Acordo Ortográfico. Há uma completa desinformação a respeito do assunto. Quanto aos concursos públicos, deve prevalecer, por enquanto, o que está prescrito pelo Acordo Ortográfico de 1943, com as alterações da minirreforma de 1971, até 2010, prazo para que oa livros didáticos se tenham adaptado às inovações da nova convenção ortográfica.

LA - O senhor já era professor quando houve a reforma ortográfica de 1971. Pode contar um pouco sobre os processos de adaptação da época? Aquele acordo já era um princípio dessa iniciativa de tentar unificar a grafia dos vocábulos entre os países de Língua Portuguesa?

Eraldo -
Não havia, na minirrforma de 1971, o propósito de unificação da grafia do português nos vários países lusófonos. Foi algo doméstico, que, diga-se de passagem, se houve muito bem ao abolir aquele acento circunflexo chamado de acento diferencial. De começo, lembro que era no mínimo esquisito escrever "ele", "olho", "este", "coco" e não "êle", "ôlho", êste", "côco". Foi só uma questão de tempo. Eu, por exemplo, alfabetizado em 1951, e leitor voraz, por vinte anos li e escrevi "aquêle", mas, com a abolição do circunflexo diferencial de timbre, em pouco tempo já me acostumara à nova grafia. Pena é que a minirreforma se tenha esquecido do diferncial de intensidade, mantendo os acentos em "pêra" e "pêlo", por exemplo. Com o novo Acordo Ortográfico, desaparecem esses diferenciais de intensidade: o substantivo "pera" e a preposição arcaica "pera", um dissílabo átono, passam a grafar-se igualmente. Aliás, sendo arcaica tal preposição, nem mais grafada ela é.

LA - O presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça, disse que "a reforma é bem-vinda, pois quando você simplifica, coloca a língua mais próxima do povo", e diz ainda que "a língua é um ser vivo e tem que estar em dia com a vida, com acréscimos e reduções". Já o professor Pasquale Cipro Neto considera que "esta é uma reforma meia-sola, que não unifica a escrita de fato". O escritor João Ubaldo Ribeiro, por sua vez, também destaca que "é uma reforma muito tímida, que não faz grandes inovações". Com qual desses o senhor concorda, e de qual descorda?

Eraldo -
Creio que, de certo modo, os três tenham alguma razão naquilo que dizem. Um projeto de unificação da grafia da língua é,sem dúvida, benéfico, mas talvez a reforma pudesse ser mais radical. Devemos ainda considerar a impossibilidade concreta de se efetivar uma uniformização total do português de todos os países que compõem a lusofonia. Afinal, se nossos irmãos lusitanos pronunciam "António", com uma vogal tônica de timbre aberto, e nós dizemos "Antônio", com o timbre fechado, como chegar a uma só grafia? Há que se considerar a especificidade de prosódia, que distingue (sem trema, antes e depois da reforma) a identidade da língua portuguesa nos diversos países em que ela é utilizada como meio de comunicação.

LA - Sobre a evolução da língua portuguesa falada no Brasil, o que podemos observar de mais interessante nesses mais de 500 anos de "falação"?

Eraldo -
Com a presença africana em nosso país, desde o início do processo colonizatório, como bem observa Gilberto Freyre, a língua portuguesa falada pelos brasileiros adocicou-se, suavizou-se em sua pronúncia, ganhou certa manemolência (quase todos dizem "malemolência"), tropicalizou-se como expressão mais condizente com a alma brasileira. A prosódia lusitana é mais sincopada, a nossa se arrasta preguiçosamente (no bom sentido, é claro). Além de ter-se enriquecido o nosso léxico com cerca de dez mil palavras cuja origem se encontra na língua tupi, aquela que os portugueses chamaram de língua geral.

Publicada também na Folha dos Lagos, em 17 de maio de 2008

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Nas filas da 'democradura'

Mal Traçadas

Por Thiago Freitas

A semana, para milhões de eleitores, está sendo de sereno à noite e sol na cabeça durante o dia, sem direito a ir ao banheiro ou saidinha para o lanche. Isso acontece em quase todo o país, por causa das filas nos Cartórios Eleitorais que se abarrotam de gente no final do prazo para regularização do título. Sinais de uma democracia? Não, não. De uma "democradura".

O desespero que toma conta dessa gente, que vai meio como gado tocado, deve-se ao fato, ao simples fato de o voto, no Brasil, ainda ser tratado com obrigação, não como um direito. Direito, quando se o tem, tem também o direito de dele abrir mão. É o livre arbítrio, o que não existe em nosso sistema. Ou vota, ou paga multa, ou tem-se o título cancelado.

Há ainda, como forma de repressão, aqueles que são condenados pela opinião pública quando manifestada a idéia de anular o voto. Mais uma vez, prevalece a concepção do voto como obrigação, a qual se entranhou em nossa cultura pós-Ditadura Militar. Mas convenhamos: vendo Alair Corrêa, Marquinho Mendes, Jânio Mendes e Paulo César como candidatos, fica difícil não ser tentado a cometer ato tão "vergonhoso, desprezível, condenável, criminoso". Mesmo assim, neste ano, quero que o voto se dane. E seria de bom senso se todos aqueles que não encontraram entre os pré-candidatos um que tenha o perfil ideal para governar fizesse o mesmo, até que apareça um. Não sei quanto a você, leito, mas podem xingar, esbravejar, fazer o que quiser... Estou de greve. Não voto. Ou me dêem alguém competente (e honesto), capacitado (e honesto), democrático (e honesto), sério (e honesto), ou deixem como está.

Bom seria se além dos pré-candidatos, os eleitores também fossem melhores. Verdade. Esses que costumam vender o voto em troca de qualquer saquinho de cimento, um carguinho qualquer na prefeitura, no gabinete daquele ou outro vereador, uma cadeirinha para esquentar a bunda nessa ou naqueloutra secretaria, façam assim: não votem. Fiquem em casa quando chegar o domingão da corrupção. Ganha a sociedade, ganham os cidadãos de bem, ganha a democracia verdadeira.


*Jornalista

quinta-feira, 13 de março de 2008

Está ali, ó, embaixo do tapete

 

Mal Traçadas

Thiago Freitas

eu

 

É só procurar que no final das contas sempre acha. Foi assim com o município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, onde o prefeito foi afastado e metade do seu secretariado levada para a Polícia Federal, no Rio de Janeiro, com os bens apreendidos. O último escândalo de corrupção da “República do Chuvisco” está servindo para mostrar que ainda existe esperança para a sociedade brasileira, e um motivo para os gestores públicos terem medo, sim, de cometer excessos com a máquina pública. E é pegando carona nesse episódio que arrisco instigar uma ação como a feita em Campos, por parte do Ministério Público e da PF, aqui em Cabo Frio. Senhores, está logo ali, ó, bem embaixo do tapete.

Levantem os sofás dos gabinetes, vasculhem as gavetas da Câmara, ouçam as conversas telefônicas, porque por aqui também pode existir sujeira. Improbidade administrativa não é exclusividade dos municípios de Magé, Angra dos Reis, Silva Jardim, Campos etc.

Comecemos por algo simples. Favorecimento pessoal e nepotismo. É ou não é proibido por lei? É. Mas aqui isso é natural, e ninguém questiona. São “Mendes” e mais “Mendes” ocupando cargos administrativos no poder público municipal. É a famosa gestão familiar. O cara é eleito e mais da metade da família está empregada. Aonde? Na prefeitura, ué. Tem um gaiato desses que responde até por uma construtora. Que presta serviço para quem? Para prefeitura, ué.

Quando da demissão dos funcionários do quadro do governo que pertenciam ao grupo de Alair Corrêa, o ex-prefeito, a lista era mais do que uma lista de exoneração motivada por racha político, era um tiro no pé de ambos os gestores, do antigo e do atual: uma avalanche de “Corrêas”, uns com parentesco mesmo, outros, sim, por mera coincidência. Mas ninguém chiou. Bom lembrar: nenhum concursado entre os citados.

Enriquecimento ilícito. Creio que os automóveis luxuosos em que andam vários figurões do governo não são, de forma alguma, carros com valores compatíveis com os salários que recebem pelos  serviços prestados à população. Salários esses pagos por ela. Um salário de vereador, secretário, prefeito, seja lá o que for, não arca com as despesas de Hondas Civics, Eco Sports ou caminhonetes avaliadas em mais de R$ 70 mil, isso sem falar em emissoras de TV, jornal, fazendas de avestruz e o escambau. “Mas eles têm profissão”, dirão. “Eu sou médico”, dirá um, “eu sou engenheiro”, argumentará outro, “e eu advogado; é de onde arranco meus proventos”, se defenderá um terceiro. Mas o dia só tem 24 horas, a menos que sejam onipresentes para darem conta de administrar um município com 160 mil pessoas e trabalharem em suas empresas particulares. E ninguém chia. Nem o MP. O que houve, afinal, Cabo Frio não está no mapa?

[Vasculhem, revirem, levantem os tapetes do poder. Vocês vão achar casos muito, muito parecidos com os de Campos]

Vasculhem, revirem, levantem os tapetes do poder. Vocês vão achar casos muito, muito parecidos com os de Campos. Obras com licitação irregular? Superfaturamento? Desperdício de dinheiro público? Serviços mal prestados? Contratações irregulares? Vasculhem, revirem, levantem os tapetes do poder. Cadê os R$ 500 milhões? Para onde foram? Quando acharem algo comprometedor, me chamem. Estarei lá para retratar que o Brasil não é mais o país da impunidade.

 

*Jornalista

quinta-feira, 6 de março de 2008

Estou nessa boca

Na toca com o lobo

Fausto Wolff

O TEMPO passa para todos. Para uns, correndo, e para outros, em marcha lenta. Passa devagar para quem está preso e mais devagar para quem está sendo torturado; não acaba nunca para o operário, que tem de tomar três conduções para descansar em casa por algumas horas, que, essas sim, passam rapidamente. Já para as crianças em geral, o Natal parece demorar demais. No mundo da política, ou seja, do crime oficialmente organizado, as coisas são rápidas. Depois que FHC comprou do Congresso o segundo mandato, todo presidente eleito só pensa em fazer algo no fim do primeiro mandato. Por exemplo: aumentar em uma miséria o salário dos pequenos funcionários públicos, que, como ganham uma miséria, não têm tempo para o público. No segundo mandato ele não fará nada, a não ser que consiga comprar um terceiro.

Para o jornalista, o tempo passa rapidamente demais. Ele esquece hoje o nome do ladrão de ontem. Quando eu ajudava o Jaguar a editar o Pasquim, no tempo das Diretas-Já, sabedores de que é impossível guardar o nome de todos os políticos que trabalham contra o povo, decidimos fazer uma eleição. Leitores de todo o país responderam à pergunta: "Qual o político mais corrupto do Brasil?" Achávamos que Maluf seria barbada. Mas o Pará em peso deve ter votado e deu Jader Barbalho por focinho. E eles eram jovens, sabiam que um futuro sórdido e lucrativo os esperava. Maluf passou alguns dias na cadeia e acha que não deve nada à Justiça: nem os milhões de dólares que mantém em bancos estrangeiros. Ao contrário, diz que Lula lhe deve um favor, pois sua prisão tirou das manchetes por alguns dias a turma do mensalão. Alguém lembra os nomes dos meliantes? Mas o que digo? Meliantes? Posso ser processado, pois os nobres deputados, como gostam de ser chamados, absolveram todos os mensalonários, menos três. Estão soltos e com o dinheiro roubado certamente se reelegerão. Jader Barbalho tem feito low profile, ou seja, tem ganhado sem trabalhar, onerando assim, por incrível que pareça, um pouco menos o Tesouro nacional. Chegou a usar algemas por alguns minutos, mas logo um juiz bondoso mandou acabar com aquela maldade. Acha que por causa dessa rápida humilhação já pagou pelo dinheiro surrupiado.

A emenda Dante de Oliveira, que pedia as diretas, foi vitoriosa (222 x 65 votos), mas rejeitada por falta de quórum. Diante disso, eu e o Jaguar publicamos no Pasquim as fotos 3x4 dos congressistas que haviam votado contra as diretas. Eram apenas 65 descarados. Os demais não foram, daí a falta de quórum. Publicamos as fotos para que ninguém se esquecesse dos facínoras. Hoje só me lembro do nome do bizarro ex-maoísta Moreira Franco. Ou foi o Medina? Todos sabiam que, nas eleições indiretas, o Tancredo Neves, um conciliador, seria barbada contra o Maluf, que nem Figueiredo queria. Eu, porém, lembrei no Pasquim que tramitava na Câmara a emenda Theodoro Mendes, que pedia eleição direta em dois turnos. Ou seja, poderíamos ter tido as diretas em 1984 e, em vez disso, tivemos o desgoverno de Sarney. Saiu tão impopular que foi se eleger pelo Amapá, onde era mais fácil.

Eta Brasilzinho bom: José Ribamar está em liberdade, impediu que o PMDB lançasse o nome de Simon para a Presidência e tem contas pendentes com a União superiores a R$ 1 bilhão. Já Alberto Capiberibe, senador amapaense pobre, honesto e nacionalista, foi cassado sob a denúncia de que teria pago R$ 28 por um voto. Como o tempo passa depressa, ninguém se lembra mais do líder do governo no Senado. É o nosso velho conhecido Romero Jucá, de Roraima, homem de convicções tão rígidas que foi líder de Fernando Henrique Cardoso no Senado. Foi obrigado a deixar o Ministério de Lula por irregularidades cometidas quando era governador. Por irregularidades entenda-se... Ah, esqueçam e cantem comigo: "Eu também estou aí, estou aí, o que é que há, estou aí nessa boca. Muita bebida, mulher sobrando, tem até trouxa nesse samba se arrumando". E o tempo passa.

faustowolf f@jb.com.br

quarta-feira, 5 de março de 2008

Caros leitores

Quando eu disse “caros leitores”, queria, na verdade, dizer “caros leitores e colaboradores”. Sim, porque disso é feito este blog, de pessoas que escrevem e de pessoas que lêem, e, no fim, tornam-se únicas pela magia da comunicação. É exatamente por essa razão que venho me comunicar com todos para informar o que deve ser não só de interesse, mas também de direito daqueles que adotaram o Lagos Alternativa como uma leitura (diária, semanal, mensal, esporádica, tanto faz).

De certo muitos devem ter se perguntado o que houve com o blog, já que ficou por um tempo desatualizado, sem novas postagens. É que começo a entender o quanto é difícil, sozinho, sustentar um veículo de comunicação, seja ele qual for. Exige tempo, dedicação, esforço, muito esforço. Exige se fortalecer, revisão de conceitos, busca de novos parâmetros. E, o principal, sustentabilidade. O que até o momento não existe. Mas que se dane! O projeto do blog era para ser isso mesmo, um jornalismo romântico que remonta o antigo e avança para um novo, quebrando os paradigmas formados nos últimos anos de imprensa.

Este breve comunicado, que já vai longe demais para o que deveria ser, tem uma função única: dizer que vamos fazer o possível para continuar, que não vamos esmorecer, principalmente num ano decisivo para a história política e cultural das inúmeras cidades que integram nossa região e de outras vizinhas. Vamos tocar o Lagos Alternativa. Vamos lutar para dar voz a todos que quiserem ser ouvidos. Vamos, assim mesmo, a reboque de exemplos como a turma do Pasquim, da Caros Amigos e de outros veículos alternativos (que sofreram e sofrem até hoje pela falta de grana), levando, empurrando... Deixemos para ver no que dá. Até porque, em várias fases da vida, tenho certeza de que todos vocês já se viram assim como eu, sempre no começo. E jornalismo é isso mesmo, um dia de cada vez.

Forte Abraço!

Thiago Freitas

Macérrimo: o que é isso, companheiro?

Ora, sim, pois, pois...

Eraldo Mai


Todos nós que cursamos as séries do Ensino Fundamental, também quando ele era conhecido por outros nomes (na minha época havia o curso primário e o ginasial), decoramos listas enfadonhas de formas superlativas referentes a diversos adjetivos da nossa língua. O superlativo, para quem não se lembra do que seja isso, é a forma que exprime a qualidade acrescida de uma idéia de intensificação. Assim, se digo que uma pessoa é bela, digo menos do que quando digo que ela é belíssima. A forma “belíssima” é, pois, uma forma superlativa, e equivale a “muito bela”, ou “bela paca”, de acordo com determinada variedade lingüística. Aliás, a expressão “bela paca”, descontextualizada, é ambígua: pode tratar-se de uma paca bonita ou do adjetivo “bela” superlativizado por meio de “paca”, resultado a aglutinação de “pra” com um substantivo de valor aumentativo terminado em “alho” (sutil, não?).

Pois bem, aprendemos que a maior parte das formas superlativas termina com o sufixo “íssimo”, e algumas em “rimo”, que, equivocadamente, muitos supõem ser “érrimo”. Essas formas superlativas em “rimo” resultam do acréscimo do sufixo a uma forma erudita latina terminada em “er”: “muito negro”, por exemplo, além de ser “negríssimo”, é também “nigérrimo” (forma superlativa erudita), uma vez que “negro”, em latim, é “niger”. No registro coloquial da língua, amiúde encontramos formas como “chiquérrimo”, “baratérrimo”, “fresquérrimo”, como se “érrimo” fosse um sufixo intensificador. Aliás, como se fosse não; ficou sendo. Parece que a força expressiva de tais formas suplanta a de “chiquíssimo”, “baratíssimo”, “fresquíssimo”, certamente pela sonoridade dos [rr] correspondentes a um fonema velar que rasga a garganta do falante, se levamos em conta a prosódia do falar carioca, não limitado ao perímetro da Cidade Maravilhosa.

Feitas essas considerações, pergunto ao leitor qual seria a forma superlativa do adjetivo “magro”. Tenho a mais absoluta certeza de que ele me dirá “magríssimo” ou “magérrimo”. Surpreenda-se, leitor, com a informação de que está tudo bem com a primeira forma superlativa (“magríssimo”), mas a segunda, talvez mais utilizada do que a primeira, considera-se um erro. Como? Sim, um erro. De acordo com os doutos, com os versados no vernáculo, “magérrimo” é uma corruptela de “macérrimo”, esta sim a forma superlativa legítima (erudita, certamente) de “magro”. A explicação é simples: “magro”, em latim, é “macer”, donde “macérrimo”. Quantas vezes em sua vida, caro leitor, você ouviu alguém referir-se a uma pessoa muito magra chamando-a de macérrima. Poucas, ou nenhuma, certamente. E qual seria a razão de o falante, que é você, esse competente utilizador do sistema da língua, ter substituído “macérrimo” por “magérrimo”? Por que as pessoas, inclusive as bem escolarizadas, as letradas, por que todas as pessoas normais dizem “magérrimo” e não “macérrimo”? Somos todos um bando de ignorantes da língua, nós que a usamos como instrumento vivo de nossa comunicação? Como entender o que houve e continua havendo?

Entro, então, eu com a minha tese. Já encontrei outras explicações. Numa delas, um professor da UFRGS, Cláudio Moreno, discípulo do grande Celso Pedro Luft, explica a forma superlativa “magérrimo” como o resultado de um processo analógico. A analogia teria ocorrido com a forma “nigérrimo”, que, nesta matéria, mencionei. Com a devida vênia, discordo do eminente professor, até porque o usuário comum da língua não emprega a forma superlativa erudita do adjetivo “negro”. Nunca ouvi ninguém dizer que a pele de alguém é nigérrima. Como supor que “magérrimo” resulte de uma analogia com uma forma que o falante não utiliza?

A explicação, segundo o que intuo, é de outro jaez. Quero crer que a coisa passe pela questão estilística. As palavras são conjuntos de sons que veiculam um significado. Ora, há palavras cujo significado parece anunciar-se em sua massa sonora. Se digo, por exemplo, “O rapaz escapou por um tris do atropelamento”, uso uma palavra de expressivíssima sonoridade, a palavra “tris”. É como se meu interlocutor pudesse ver o rapaz quase sendo atropelado. Aquele fonema /i/ posposto ao grupo consonantal /tr/ do monossílabo nos dá nitidamente a idéia de um átimo de tempo.

Seguindo essa linha de raciocínio, observe-se a palavra “macérrimo”. A letra [c], em tal vocábulo, corresponde à fricativa /s/, sibilante. Tem o mesmo valor fonético dos [ss] da palavra “massa”. Assim, como não associar, quando escutamos “macérrimo”, o significado dessa palavra ao de “massa”? Fica a impressão de que uma pessoa macérrima é uma pessoa com muita massa, marombada, como se diria numa variedade saborosíssima da língua portuguesa. É como se o significante (a estrutura sonora da palavra) contradissesse o seu significado, porque uma pessoa macérrima tem pouca massa, já que é muito magra.

O falante, com sua sabedoria inata, substituiu o fonema /s/ de “macérrimo” pelo som correspondente ao da letra [j], mesmo som correspondente ao da letra [g] em “magérrimo”. Ao ouvir que alguém está magérrimo, o som do [g] sugere um desmilingüir-se, vocábulo também de massa sonora bem expressiva. “Magérrimo”, pelo caráter fricativo do fonema correspondente à letra [g], lembra a massa corpórea que se esvai, tornando esquálido o corpo, muito magro, portanto.

Se minha análise terá algum fundamento científico não sei. Sei que curti muito fazê-la. Espero que o leitor tenha embarcado comigo nessa viagem.



*Poeta e professor de Língua Portuguesa da Ferlagos

Conversos


Eraldo Mai

Certeza

Esta alegria é Deus
Este conforto imenso é Deus
Esta paz é Deus
Este estar pronto para a poesia é Deus
Este abrir-me ao próximo
Este cantar interno
Este olhar para as coisas com doçura
É Deus

É Deus sim
Que tem vindo amiúde com zelos de Deus
Afagar seu filho
É Deus sim
Que Se tem mostrado generoso
Tem me ensinado tanto
E feito dos meus momentos
Louvação constante

É Deus a todo instante
Me querendo bem
Sem motivo
Só porque Ele é bom


Posse

Eu dizia meu Deus
Sentimento de posse

Passava a dizer nosso Deus
Ainda sentimento de posse

Então dizia Deus
Assim o aprisionava

Agora mergulhar no silêncioSorvendo Deus sem palavras


*Poeta e professor de Língua Portuguesa da Ferlagos

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Redação tem cada coisa...

Paulo & Pauladas

Paulo Freitas

Doutor Sylvio Fontoura tinha a desvantagem de ser velho, esquelético e baixinho, contrastando com sua invejável inteligência e cultura.. Era dono do jornal “A Notícia”, em Campos dos Goitacás, pelos idos de mil novecentos e lá vai fumaça. Homem importante e que não se dava ao luxo de aparições públicas. Raramente visto nas ruas. Quem é do ramo deve-lhe uma das passagens mais curiosas da imprensa fluminense, que ouso tentar contar.

Sucedeu-se no tempo dos bondes, da energia racionada, no pós II Guerra Mundial. Havia nos Campos um mau elemento conhecido apenas pela alcunha de Zé Grande. Um gigante. José Cândido de Carvalho, que me contou esse causo, dizia que o dito cujo era um legítimo 15 por 36, medida de terreno grande. Grandão. E se prevalecia dessa opulência e vigor para desrespeitar as famílias. Sua predileção era mijar na rua, exibindo um falo imenso. Ficava na calçada, mirava na pista como se estivesse do alto de um trampolim, rindo as escancaras e balançando o pingolim de modo a irrigar os macadames da Rua do Sacramento e as calças também.

Força policial não podia com Zé Grande, em cuja folha corrida constava a suspeita de ter aleijado meia dúzia de guarda metido a besta e inúmeras resistência à prisão bem sucedidas. Tocava o terror, dava calote nas quitandas e cafés. Inconformados com as atitudes de moço, pessoas de bem procuraram o doutor Sylvio Fontoura para que o jornal denunciasse as mazelas promovidas ao arrepio da lei e complacência policial. E Sylvio Fontoura tascou lá:

“Até quando a civilização vai conviver com as indecências do indigitado meliante alcunhado Zé Grande, 24 anos, filho da benevolente Dona Cotinha? Dito mau elemento está a merecer justificada surra e apodrecer no cárcere tal o mal que faz à nossa sociedade.....” E foi por ai, metendo o malho na policia, delegado, juiz e até nos voluntariosos dos comissários de menores, civis com aptidão para perseguir criancinhas, que nada faziam.

Zé Grande não era homem de comprar jornal. Jamais saberia da publicação não fossem os alertas dos habitues do Boulevard. Acabou de ler bufando, pedindo o significado de todos adjetivos, especialmente o “benevolente” da senhora mãe dele, que julgava corresponder a quenga, puta, mulher da vida dia pra pior. Enfurecido, informou-se sobre o local da redação e em especial do redator, velhinho, magérrimo e tão pequenino que cabia numa foto 3x4 de corpo inteiro.

Quebro esse traste ou não me chamo Zé Grande! - sentenciou enquanto repetia o nome de doutor Sylvio sem parar a modo de não esquecer. E por onde passava, notava os risos debochados nos semelhantes e ouviu pelo menos uma centena de vezes que seu nome estava no jornal.

Para chegar mais depressa a Sylvio Fontoura, Zé Grande comeu na bofetada o moço do balcão e só a misericórdia divina justifica não ter arrebentado os degraus da escada de madeira, que ele fez de surdo de marcação. Quem viu garante que mais pareciam a formiga e o elefante, o velhinho Sylvio e Zé Grande.

- Foi o senhor que escreveu isso de mim? – esbraveja. No que o jornalista assentiu que sim, o grandalhão enroscou a folha e sentenciou:
- Então vai comer, seu velho filho da puta! Vai comer tudinho...
Não adiantou pedir calma, nada. Empurrou o jornal goela abaixo e ficou naquele “morde, come desgraçado; agora, tem que engolir”. O jornalista obedeceu para salvar pele e terno de casimira inglesa. Mastigou e engoliu bons pedaços para delírio do mau elemento, que saiu da redação contando vantagem.

No dia seguinte, em manchete, “A Notícia” publicou: “Inconformado por ter sido denunciado por este jornal, o mau elemento Zé Grande entendeu de tirar satisfações com o nosso diretor, Doutor Sylvio Fontoura, que o pôs a correr daqui pra fora com um pontapé nos fundilhos....” e foi ai. De arruaceiro, facínora, delinqüente, boçal e energúmeno Sylvio Fontoura fez a festa, o que suscitou mais uma aparição do gigante, daquela vez mais violenta, a ponto do jornalista necessitar da assistência do Samdu. Ainda assim, ditou para Hervê Salgado a manchete do dia seguinte “Jornalista dá surra em mau elemento”.
Ninguém duvidou nem estranhou, porque Sylvio Fontoura não dava as caras. E se aquele velho esquelético bateu em Zé Grande, a Polícia haveria de se fartar. E como fartou. Apanhou muito o valentão e há quem diga que virou moça, moçoila do companheiro de cela conhecido como Antonio Jumento, o Toninho Pé de Mesa.
A aparição de Sylvio ocorreu meses depois, equilibrando-se numa bengala, alquebrado e festejado por onde passasse. Nem reparou quando chamaram-no de Maciste, que Steve Reeves imortalilizou.



*Jornalista e escritor

Por que odeio o Cabofolia

História & Sociedade
José Francisco de Moura
Eu odeio o Cabofolia. Você pode imaginar que a razão é o fato de eu gostar muito de rock. Não vou negar que esse argumento seja relevante. Os rockeiros não toleram o axé e isso é uma coisa bem conhecida. Mas por quê será então que eu e a grande maioria dos rockeiros não odiamos MPB, Música Clássica, Blues, Jazz, Samba de raiz e Bossa Nova ? Logo, gostar de rock não é o principal argumento. Vou apresentar outras razões para odiar essa porcaria de micareta.
O axé representa tudo aquilo contra o qual eu e muita gente de bem luta. Representa, primeiramente, o poder da mídia musical sobre o que devemos ou não ouvir nas rádios e nos programas de TV. Vamos ao português claro, sem rodeios: o axé representa a alienação. Em um mundo dominado pela injustiça social, pela exploração do trabalho, pela corrupção e pela eminência de destruição do planeta, o axé configura-se em uma música abobalhada que produz a falsa sensação de alegria do “mãozinha pra cima, pezinho pra baixo”. E o Cabofolia é o evento que promove tudo isso em nossa região.
O Cabofolia é um evento desprezível também em função de atrair parte de um público com o qual eu tenho muita antipatia. O Cabofolia atrai o pit boy alienado que pensa que ser feliz é sarar o corpo e lutar Vale-Tudo. Vem lá do cafundó do Judas pensando que nossa cidade é a Sodoma dos Trópicos, agarrando à força a mulherada (embora muitas gostem disso, devo reconhecer) e provocando brigas e tensão à sua volta.
A mulher que vai e gosta de micareta também não é das mulheres que mais me atraem. Algumas podem até ser belas por fora mas, sinceramente, o que terão na cabeça ? Se minha filha fosse fã do Cabofolia eu sentiria um tremendo desgosto. Quero que minha filha seja consciente e se valorize enquanto mulher. Não quero que seja escrava da mídia nem um mero objeto dos desejos sexuais animalescos de homens imbecis. As mulheres lutaram muito para chegar na condição em que estão hoje. Muitas perderam a vida para que elas hoje possam votar, trabalhar e ter direito ao prazer sexual E as micareteiras parecem não saber disso, denegrindo a imagem da mulher em um mundo ainda tão machista e chauvinista.
O Cabofolia atrai para cá um tipo de turista que eu não gostaria de ver no lugar mais asqueroso do mundo, imagine em nossa querida Cabo Frio, qual seja, um turista folgado, que não gasta quase nada na cidade, que vem e volta logo após o evento e que afugenta quem gosta de paz e tranqüilidade.
O Cabofolia poderia aproveitar a ocasião de reunir tantos jovens para divulgar o folclore e a cultura popular nordestina, como propôs o professor e teatrólogo Facury. Mas ao invés disso, esse ano, pasmem, o evento contou com uma tenda tocando Funk. Pensando bem, nada mais apropriado.
Se colocássemos em uma fila indiana todas as pessoas que durante esses dez anos de Cabofolia já foram de alguma ou outra forma agredidas, estupradas, assaltadas e desrespeitadas durante ou no entorno do evento, te garanto que a fila iria chegar até Arraial do Cabo. Mas por que será então que o Cabofolia continua a ocorrer mesmo após tantos acontecimentos desagradáveis ? Por várias razões, meus caros amigos. Primeiro, porque o Cabofolia enriquece a pessoa que o organiza. Depois, porque seu organizador é uma pessoa muito próxima do Poder constituído em Cabo Frio há pelo menos dez anos, o que faz com que ele consiga com imensa facilidade obter todas as licenças e a ajuda para tudo o que precisar. Depois, porque consegue patrocinadores para toda essa baixaria, desde das leis de incentivo à cultura, o que se não é ilegal é uma vergonhosa imoralidade, até incentivos de grandes empresas privadas.
As pessoas que organizam o Encontro de Motos, o Cabo Free, os festivais de Teatro da cidade, o Rock Humanitário, o desfile das Escolas de Samba, os Congressos e outros mil eventos não oficiais sabem que é muito difícil conseguir patrocínio privado e liberação de verba de lei de incentivo. Mas, no Brasil é assim: se você é poderoso, sabe os buracos das leis, as mumunhas do conchavo e as barganhas políticas, você consegue tudo. Caso contrário, padecerá para organizar seu evento, esmolando ajuda de amigos, de empresas e da prefeitura, por melhor e mais digno que o evento seja perto do malfadado Cabofolia.
Chicléeeteeeeeeeeeê.
*Professor de História e Doutor em História da Grécia

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Conversos

Eraldo Mai

Bailado

A dança cósmica
É dançada entre Deus e mim
Entre a minha alma e Deus

A alma pisa nos pés de Deus
Ele nem se incomoda
E me convida a bailar de novo






Ecumenismo

Os meus irmãos católicos rezam
Já meus irmãos evangélicos oram
E meus irmãos kardecistas fazem preces
Os meus irmãos hinduístas entoam mantras
E meus irmãos umbandistas cantam pontos
Os meus irmãos ateus torcem e têm pensamentos positivos

Enquanto isso
Os meus irmãos que não amam
E que também (sem fingimento!)
Não rezam
Não oram
Não fazem preces
Não entoam mantras
Não torcem nem têm pensamentos positivos
Por que não amam sofrem
São tão infelizinhos

Rezemos
Oremos
Façamos preces
Entoamos mantras
Cantemos pontos
Torçamos e tenhamos pensamentos positivos

Pra que os irmãos que não amam
Passem a amar
E conheçam conseqüentemente
A alegria

Suposições, meras suposições

Ora, sim, pois, pois

Eraldo Mai



Desde pequeninos, nos primeiros anos do segundo segmento do Ensino Fundamental, aprendemos, em aulas de Língua Portuguesa, que pronomes oblíquos átonos não devem iniciar sentenças. Os professores ensinam o que os livros ensinam, repetindo-se a prescrição sem que haja um motivo lógico para que ela exista. Afinal, o que mais fazem os usuários da nossa língua é começar frases com pronomes oblíquos átonos, especialmente com os de primeira pessoa, “me”. Que usuário do português, por mais escolarizado e atento ao emprego da língua, não formula sentenças como “Me contaram que o jogo foi emocionante”?

Oswald de Andrade (leia-se o prenome com acentuação prosódica na sílaba “wald”, porque assim o desejava o dito cujo), o genial poeta de nossa geração modernista de 22, em seu conhecidíssimo poema “Pronominais”, brinca irreverentemente: “Dê-me um cigarro/ Diz a Gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido/ Mas o bom negro e o bom branco/ Da nação brasileira/ Dizem todos os dias: - Deixa disso, camarada/ Me dá um cigarro”. Pois é assim que dizemos, “Me dá”. Atualmente, o enfoque um tanto ou quanto lingüístico dos professores e dos livros os leva a aceitar que a anteposição do pronome ao verbo, iniciando-se a frase com o pronome, é um traço característico do registro coloquial da linguagem. Tal colocação, porém, no nível de um registro culto permanece absolutamente vedada. Por que, Deus meu, por quê? Se todo falante brasileiro, escolarizado ou não, doutor ou analfabeto inicia frases com o pronome “me”, por que tal procedimento é proibido num texto escrito formal? Quem determina que assim seja? Quem legisla sobre a “correção” da linguagem?

Há muitos e muitos anos, indagado sobre as regras de colocação dos pronomes oblíquos átonos, o filólogo João Ribeiro, respeitadíssimo estudioso do português, se saiu com esta: “Eu nos os coloco, eles é que se colocam”. Sábias palavras as do mestre. De fato, a colocação dos pronomes atende a uma questão de eufonia, isto é, àquilo que soa bem aos nossos ouvidos. Ora, por acaso soa mal aos ouvidos de alguém uma frase iniciada pelo pronome “me”? A que ouvidos soaria mal uma frase assim, se todos nós dizemos “Me conta”, “Me escuta”, “Me mostra”, “Me beija”?

Matutei sobre a questão por muito tempo. Todos os gramáticos renomados, entre os quais incluo Evanildo Bechara, Celso Cunha, Domingos Paschoal Cegalla, todos eles consideram um solecismo (lembram-se?) de colocação a próclise do pronome oblíquo átono no começo de frase. Em registro formal, modalidade escrita, jamais se deve começar uma sentença com “me”.

Então comecei a perceber que as regras de colocação desses pronomes, regras apresentadas em nossos livros de Gramática e, conseqüentemente, nos livros didáticos de Português, parece atenderem a uma prosódia (é o mesmo que pronúncia) tipicamente lusitana. Por isso, por exemplo, aprendi que não se deve escrever “Estou te pedindo”, com o pronome solto entre os dois verbos, o auxiliar e o principal. Devo escrever “Estou-te pedindo” ou “Estou pedindo-te”. A segunda versão é profundamente artificial em nossa fala. E a primeira? Leiam “Estou-te pedindo” ligando o pronome ao verbo “estou”. Não soa de modo muito estranho aos nossos ouvidos brasileiros? Parece-me estar aí o xis da questão. Nossa prosódia difere da prosódia lusitana, em que os pronomes como “me” e “te” são absolutamente átonos, ou seja, sem força em sua emissão, além de sofrerem uma redução fonética da vogal, que quase não se pronuncia. Já no português do Brasil, tais pronomes ganharam alguma tonicidade, e os dizemos como /mi/ e /ti/.

É claro que, na fala lusitana, não se poderia iniciar uma frase com o pronome “me”, que soa quase como um só fonema, a consoante nasal bilabial /m/. Nossos irmãos portugueses dizem “Dá-m’ o livro”, ficando praticamente imperceptível ao ouvido o som da vogal átona do pronome. Como dizemos /mi/ e não /m’/, colocamos o pronome no início da frase, antes do verbo, em próclise, até porque a próclise é a colocação mais natural do pronome oblíquo átono na fala brasileira. E como dizemos “Estou /ti/ pedindo” e não, como os usuários de Portugal, “Estou-/t’/ pedindo”, ao escrevermos não sentimos que o pronome esteja ligado ao verbo “estou”, pois, de fato, de acordo com nossa realidade de pronúncia, o pronome não está ligado a esse verbo.

Lembro meu professor de Língua Portuguesa na faculdade, Sérgio Waldeck, que, de maneira muito bem-humorada, criticava a prescrição dos gramáticos recomendando não colocar-se o pronome solto entre os dois verbos de uma locução. “Por que não pode estar solto, por acaso cai?”, perguntava meu mestre. Os livros têm repetido, há muito tempo, a lição relacionada a uma realidade lingüística que não é a nossa, mas é a realidade da fala de nossos colonizadores. É preciso ousar. Recomendo que se introduza, também no texto escrito em linguagem forma, a frase iniciada pelo pronome pessoal oblíquo átono, até que tal desempenho do usuário se torne a norma abonada pelos gramáticos. Afinal, eles não são os donos da língua, nem a inventaram. Quando nós assumirmos a nossa realidade lingüística, que fez de um vocábulo átono um vocábulo quase tônico, não haverá razão plausível para que se mantenham, nos livros, determinadas regras referentes à colocação pronominal, mesmo num texto solene.

Me causa espécie (notaram a sutileza da colocação?) que ninguém tenha percebido aquilo que me parece tão óbvio. Ainda agora, quando organizei a primeira sentença deste parágrafo, o meu computador, subserviente às regrinhas fundamentadas na pronúncia lusitana, me fez um risquinho verde sob “Me causa”, numa demonstração cabal de que a máquina não pensa, não faz suposições, não ousa.


*Poeta e professor de Língua Portuguesa da Ferlagos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Solecismos e francesismos


Ora, sim, pois, pois

Eraldo Mai


Solecismo, para quem não sabe o que isso seja, é qualquer desvio da norma gramatical referente à concordância, regência ou colocação, isto é, uma transgressão relacionada à organização sintática de uma sentença. Assim, por exemplo, a posposição de um pronome átono ao verbo, caso haja, antes dele, uma palavra negativa, corresponde a um solecismo de colocação. Coisas como “Não deram-me a menor importância” correspondem a esse “vício” de linguagem. O certo, diria a veneranda Gramática de nossa língua, é “Não me deram a menor importância”, uma vez que, com a tal palavra negativa anteposta ao verbo, a próclise se faz obrigatória. Próclise é exatamente a anteposição do pronome oblíquo átono ao verbo. Também teríamos um caso de solecismo em frases como “Assistimos o jogo pela televisão”, porque, de acordo com a lição dos livros dos gramáticos, o verbo “assistir” é, quanto à sua regência, um verbo transitivo indireto, exigindo um complemento preposicionado. É claro que, no registro coloquial distenso, tal verbo é tratado mesmo como transitivo direto, e seu complemento não se preposiciona. Os livros didáticos, porém, e os censores da língua querem porque querem que o verbo seja transitivo indireto, e seu complemento seja antecedido de preposição. Não ocorrendo assim, houve um solecismo de regência.

Pois é exatamente em torno de um solecismo, de um bendito solecismo de regência, que escrevo a primeira parte desta matéria. A cena se passa há quase quarenta anos, mais precisamente em l968 (ano da Passeata dos Cem Mil), lá na Faculdade de Direito da UFRJ, quando eu cursava o terceiro ano do meu bacharelado. Havia uma prova de Direito Processual Penal. Naquele ano, já namorando aquela que se tornaria minha mulher por toda a vida, e a quem conheci na faculdade; dedicando-me à política universitária, aos atos de repúdio ao governo militar e ao imperialismo ianque, eu pouco freqüentei os bancos da escola. Ia mesmo só fazer as provas semestrais, mas, nas aulas, pouco dava o ar de minha graça. Foi justamente numa das provas, aquela referida acima, que a coisa aconteceu.

Entra na sala o professor. Constata que, para fazer a prova, há muitas dezenas de alunos, embora fosse baixíssimo o comparecimento às aulas. Exterioriza, então, sua indignação, alegando que não conhecia grande parte dos alunos que, na sala, se encontravam. Começa a olhar para nós, e eu, envergonhado, procuro não me fazer notar, porém seus olhos batem em mim. Com rispidez, pergunta-me: “O senhor é aluno da faculdade”? Confesso que, na minha irreverência de 22 anos, tive ímpetos de responder que não, que estava ali só de sacanagem, mas é óbvio que não me atrevi a tanto. Disse-lhe que era aluno regularmente matriculado. O mestre, então, pergunta-me se eu podia provar minha condição de aluno, justificando-se: “Sim, por que eu não lhe conheço”.

Foi a minha salvação: o professor cometera um tremendo solecismo. O verbo “conhecer” pede complemento sem preposição, conseqüentemente o pronome “lhe” não deve ser usado como seu complemento, já que sua função, de acordo com o que preceitua a norma culta é de objeto indireto. Quem conhece não conhece a alguém, conhece alguém. Assim, diante do “Eu não lhe conheço” do meu professor de Direito Processual Penal, jurista conhecidíssimo e respeitado, levanto-me da cadeira, inclino um pouco o meu corpo pra frente e digo em voz bem alta: “Mas eu o conheço, eu o conheço muito bem, professor”! O mestre percebe a gafe, avermelha, olha na minha direção e diz-me: “Está bem, está bem, pode sentar-se e fazer sua prova”!

Ufa! Salvo por um solecismo de regência!

O outro “causo” que me lembra (eis uma regência que Machado de Assis adorava: em vez de alguém lembrar algo ou lembrar-se de algo, algo é que lembra à pessoa) envolve um purista e sua teatralidade. O ano era o de l972. Eu já lecionava em cursinhos pré-vestibulares. Estava na PUC do Rio de Janeiro, esperando alunos que sairiam das salas onde faziam a prova do seu vestibular.

Entre os meus pupilos, havia um, cujo nome não recordo, mas de quem jamais esquecerei, excelente aluno, que, saindo da sala onde fizera a prova, conversa comigo a respeito da redação. O tema girara em torno de um poema de Drummond sobre a bomba atômica, que eu já analisara com meus alunos numa das aulas do cursinho. Meu pupilo dizia-me que tentara lembrar-se de tudo o que eu dissera sobre o poema, mas que não conseguira. Para consolá-lo, disse-lhe que, certamente, ele se esquecera de algum detalhe.
Pra que fui dizer detalhe? Perto de mim, estava um professor de um cursinho rival daquele em que eu trabalhava. Eu era um garoto de 26 anos; ele, um homem já maduro, de mais de 40 anos. Tido como um purista do vernáculo, ou seja, daqueles que odeiam palavras estrangeiras, os chamados barbarismos, horroriza-se com a palavra que eu dissera. Já houve tempo ( e a década de 70 já não era esse tempo), em que os tais puristas repudiavam palavras de origem estrangeira e, ridiculamente, criavam, com radicais gregos e latinos, outras que a elas sucederiam. Assim, por exemplo, em lugar de futebol, criaram ludopédio e balípode; em lugar de “soutien” (pasmem!), porta-seios; e anidropodoteca para substituir galocha. Pois o professor purista não tolerara o emprego da palavra “detalhe”.

“Mestre”, ele grita, abrindo os braços dramaticamente pra mim,”não diga detalhe, diga pormenor, porque detalhe é um galicismo”! Pode uma coisa dessas? Não dizer detalhe, dizer pormenor? Mas espera aí: que foi que ele disse mesmo? Detalhe é galicismo?

Então, do alto da minha juventude e dos meus cabelos longos, sorrindo pro meu acusador, revidei educadamente: “Mestre, não diga galicismo, porque galicismo já é um francesismo, não é”? O meu rival amarelou, engoliu em seco, tentou brincar, dirigindo-se ao diretor do meu cursinho: “O passe do Eraldo está à venda”? O discurso, agora, era outro.

Eis como conhecer certos pormenores (detalhes não, porque detalhe é francesismo) da língua pode nos socorrer em certas situações embaraçosas.



*Poeta e professor de Língua Portuguesa da Ferlagos

Conversos


Eraldo Mai
Advento

Havia Deus que dormia
E o rosto de Deus sorrindo
Deus desligado do mundo
Descansava e era bonito
Ver Deus dormindo e o sorriso
Quem sabe com que sonhava?

Lá na barriga de Deus
Deus aos poucos se fazia
Em novo corpo tecido
O mesmo Deus residindo
Na pessoa que dormia
Naquela que nela estava

Era a vida florescendo
No ventre da própria vida
Era o amanhã se tecendo
Dentro daquela barriga
Era a espreita da colheita
Da mais perfeita alegria

Siempre

Me gusta el frio
Cuando hace frio
Y me gusta el calor
Cuando hace calor
Me gusta la lluvia
Cuando llueve
Y me gusta el sol
Cuando hay sol

Me gusta Dios siempre
Porque siempre hay Dios
Y me gusta la gente siempre
Porque siempre en la gente
Hay Dios


*Poeta e professor de Língua Portuguesa da Ferlagos

Quem inventou esse tal de Estado?


Mal Traçadas


Thiago Freitas

Confesso. Nos últimos dias, ando com os sentimentos meio à flor da pele. Às vezes, me flagro chorando diante da TV, lendo jornais ou assistindo a certos filmes, como À Procura da Felicidade. Os absurdos que presencio me tocam o coração feito socos, socos repetidos, numa seqüencia ininterrupta de golpes.

Não foi sem me revoltar, e questionar muito, que acompanhei durante todo o mês de novembro o caso da menina de 15 anos, presa, em Abaetetuba, no Estado do Pará, em uma cela com 20 homens, onde sofreu todo tipo de abuso sexual em troca de comida.

Perdoem-me o excesso de sentimentalismo implícito neste texto, mas meu maior defeito – tem quem considere isso qualidade – sempre foi não separar meu eu-cidadão do eu-repórter. Afinal, que merda de Estado é esse que permiti tamanho absurdo e classifica isso como um erro? Não foi um erro, foi um crime, cometido por nosso Judiciário, por nossa polícia, por nosso Legislativo, Executivo e todo resto.

Em São Paulo, o mesmo aconteceu com o caso do delinqüente ciumento que seqüestrou, pela segunda vez, a ex-noiva, conseguindo concretizar aquilo que não havia conseguido na primeira tentativa: matar aquela que era vítima de sua possessão. Para isso contou com a “ajuda” do judiciário, que o concedeu liberdade provisória um mês depois dele ter se entregado à polícia. O primeiro seqüestro ocorreu em junho deste ano. Tem quem diga que a Justiça cometeu um erro. Eu diria, sem pudor, que a Justiça foi cúmplice de um assassinato ao colocá-lo novamente nas ruas.

Na Região dos Lagos, barbaridades como essas, infelizmente, não são menores. A violência, assim como a impunidade e suas conseqüências, por aqui, não deixa nada a desejar para a que ocorre nos grandes centros urbanos. Recapitulando: uma menina de cinco anos é estuprada e jogada morta dentro de um buraco qualquer em Arraial do Cabo; um menino, de oito, também é violentado pelo padrinho, no bairro da Ogiva, em Cabo Frio; outro animal – os animais que me perdoem – sem alma violentou uma criança de dois anos... E nosso coronel Adílson Nascimento, comandante do 25º Batalhão da Polícia Militar, tenta nos convencer, através de números infundados, de que “a violência na região não aumentou, mas, sim, a polícia é que está mais atuante”. Fato é que ninguém, diante de seus erros – ou crimes – sabe dar uma explicação que convença os milhares, milhões de cidadãos que esperam um mínimo de sentido nessa tal sociedade gerenciada por nosso Estado, constituído por seus Três Poderes. É por isso que tanto o Adílson como o Lima Castro - este último já deixou o cargo e foi errar em outras bandas - de boca fechada são verdadeiros poetas. Uma dupla perfeita de parnasianos que muito falam sem nada dizer.

E nossa grande imprensa, o que dizer dela? Voltando ao fato da menina do Pará. Leitores, realizem comigo: foi um preso que saiu da cadeia e foi até a escola, conseguiu uma cópia da certidão de nascimento da menina e se dirigiu ao conselho tutelar. A mãe dela, que apareceu pedindo justiça após o caso explodir na mídia e a menina ser libertada, onde estava esta pobre mulher que não tomou ela própria essas providências? Os presos, por que foram transferidos? E por que a menina foi retirada do Estado do Pará junto com o pai biológico, ambos ameaçados de morte (também não dizem por quem) enquanto que a mãe permaneceu por lá? São questões que a imprensa, claro, não tem obrigação de responder, mas o dever de perguntar, isso tem. Eu, por enquanto, fico aqui, entre lágrimas, letras e o sentimento de revolta, de insegurança, de impotência. Ainda não duvido da existência de Deus. Mas uma pergunta chata, impertinente, insiste em me martelar a cabeça a cada edição de jornal, a cada fato presenciado no dia-a-dia desse mundo cão: quem foi o louco, o imbecil ou desocupado que inventou esse tal de Estado?




*Jornalista

A liberdade de escrever



Nossa Imprensa

Octavio Perelló

Por falta de outro que atendesse à idéia deste artigo, afanei o título acima. Roubei-o de um livro que considero obra capital de Erico Veríssimo, A liberdade de escrever – Entrevistas sobre literatura e política (Editor Globo, 1999, 210 páginas). Com apresentação de Luis Fernando Veríssimo e organização de Maria da Glória Bordini, trata-se da compilação de parte substancial do pensamento do escritor, em reunião de entrevistas memoráveis. Erico Veríssimo, este que, como poucos, viveu de literatura, nos legando sua ficção monumental e um punhado de opiniões e posicionamentos corajosos.

Os livros, sem exagero, são o que detém a liberdade do planeta. Não se iludam, meus parcos e pacientes leitores, não há liberdade total, em nenhuma mídia, senão nos livros. Os ideais mais libertários, desde o advento do livro, estão impressos nestes, e não há jornal que o conteste. As artes são livres e libertárias, mas as letras impressas nas páginas dos livros são mais, estejam reportando fatos reais ou costurando narrativas de ficção. A literatura, em seu sentido bibliográfico, não é somente linguagem, carrega a língua documentada. É nesta fonte que bebemos desde as primeiras letras.

Neste exato momento, ao traçar estas modestas linhas, não posso acreditar que a Internet é um canal de livre expressão. Sinceramente, não é. Mesmo que sejam acessados de forma democrática, sites e blogs são regulados, em seu conteúdo, pelo dispositivo invisível da censura, seja da autocensura do escriba ou da tesoura do editor. Afinal, há limites que se impõem pelo respeito ao leitor, coisa que nos livros não ocorre. Por sua verve libertária, são os livros os maiores alvos de censura em toda a História, desde as fogueiras medievais que, além de páginas e encadernações, também esturricaram muitos autores. Desde os romances picantes que ruborizaram moças curiosas, até as mais contundentes idéias publicadas que abalaram o mundo e o transformaram.

Ao longo da História avança e recua a imprensa, mesmo escrevendo páginas importantes. Evidentemente que sempre houve a imprensa resistente a políticas totalitárias e arbitrárias – um ou outro segmento sobrevivendo às margens do sistema. Porém, muito antes da primeira pressão ou do primeiro atentado a uma redação, os livros já haviam freqüentado imensas fogueiras. Estes sim nos legam o conhecimento de muitos séculos. O legado religioso e científico nos foi trazido pelos livros; as ideologias perduraram mais pelos livros do que pelos sistemas que implantaram. A liberdade de escrever jamais foi tão suprema em outro território.

Não pretendo, com estas opiniões, aprisionar a atuação da imprensa nas masmorras perpétuas do sistema. Apenas externo uma reflexão que sempre me acompanha sobre a liberdade de escrever. Não me refiro à liberdade de falar, inclusive de caluniar ou exagerar em elogios, mas sim da incomensurável liberdade de escrever, que maior não há do que nos livros, na literatura.



* Jornalista, arquivista, especializado em Gestão de Centros de Documentação e Informação, atualmente diretor-geral da Câmara Municipal de Cabo Frio e colaborador da Revista Cidade, com passagens por importantes assessorias de imprensa e agências do Rio de Janeiro, tais como Bradesco Seguros e Previdência, Básica Comunicação, Shopping de Comunicação e FSB Comunicações, e veículos, agências e assessorias de imprensa do interior do Estado, como Folha dos Lagos, O Canal, Cox Propaganda, Humanóides Produtora, Prolagos e Prefeitura de Búzios. Autor de Memórias de um mouro (Prêmio IV Concurso de Contos da Prefeitura de Niterói, publicado pela Niterói Livros em 2006) e Colóquios de Vespúcio e Colombo (Prêmio Teixeira e Souza de Literatura 2003 / Prefeitura de Cabo Frio).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

A todos, um Feliz Natal!



O Lagos Alternativa deseja a todos leitores e colaboradores deste blog um feliz Natal, repleto de paz, amor, fé, saúde e luz. E que ao comemorar o nascimento de Jesus, mesmo aqueles que não crêem, todos vejam nascer em si a força necessária para seguir em frente, fazendo deste mundo um mundo melhor. É este o nosso ideal.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Larga do meu pé, jacaré, ou deixem os Campos de Dunas do Peró em Paz


Verde que te quero verde


Juarez Lopes

O grande embate que se anunciava nas décadas de 70 e 80, quando Cabo Frio foi precursor, em nível estadual, da tentativa da revelação de uma consciência ecológica, a chamada ecologia profunda, chegou. A cidade de Cabo Frio é, atualmente, o foco (ou seria alvo?) das atenções dos grandes investidores, antes travestidos de especuladores imobiliários, só que, como o filme queimou, agora se apresentam como investidores em eco-sustentabilidade. A arrogância é tanta que um dos seus principais representantes, o chefe da tribo, o Robredo Ambrófilo, em um dos seus encontros, num desses balcões de negócios, falava:

“... vejam só, nobres senhores, aqueles ambientalistazinhos querem interromper um ‘negócio’ de R$ 500.000.000 (quinhentos milhões de reais), só porque na nossa área tem uma plantinha, uma tal de jaquinia, e o que é pior, tem um tal de um passarinhozinho, acho que o nome dele é formigueiro do litoral, que faz uns buraquinhos por lá, e eles, os tais ambientalistas, querem proteger. Ora amigos, eu vos pergunto: esses ambientalistas se preocupam com a favela do buraco do boi? Se preocupam com as invasões da APA de Massambaba?”

A fala desse digníssimo representante poderia se encaixar na boca de qualquer um desses grandes personagens da recente história mundial, aqueles que pregaram o apartheid, o absolutismo, o racismo, a raça pura, o ódio pelo outro, ou seja, o discurso único, a vaidade, o preconceito, a falta de conhecimento, a insensibilidade.

Senhor Robredo Ambrófilo, se o senhor não sabe, não estamos diante de um lugar qualquer, de um valor qualquer, de uma equação pura. Estamos diante de um patrimônio público mundial. Algo que é capaz de gerar tudo que o senhor propõe, com uma significativa vantagem: é pra sempre. Inalienável. Indissociável. Geradora de sonhos, como os que sonhou Albert Einstein.

O campo de Dunas do Peró, nosso maior patrimônio, não se fez por manipulação genética, por negligência administrativa. Quem o fez, fez com muita categoria e sapiência. Deixe-o em paz, por favor! Afinal, “... de que me serve um saco cheio de dinheiro, pra comprar um quilo de feijão?”



*Engenheiro Civil, sanitarista e ambientalista

Os cínicos e o cigarro

Esquerda, volver!


Avelino Ferreira


Está provado: o cigarro dá muito prazer, ao mesmo tempo que provoca males. Aliás, como o açúcar, a gordura, o álcool. Mas, dizem os estudiosos, o fumo dá muito mais prazer que as outras drogas e, por isso, é mais difícil deixar de fumar que deixar o crack, a cocaína, a maconha, a gordura, a carne bovina, o álcool etc..


No que tange ao fumo, parece que tudo começou com os tupinambás, que pitavam um cigarrinho de fumo de rolo, fato que foi motivo de relato do capelão da primeira expedição francesa ao Brasil, em 1556, segundo conta Mário César Carvalho no seu livro O Cigarro. O autor omite que não foi o câncer que dizimou os índios, mas sim as armas de fogo.

As invasões européias à terra da Santa Cruz permitiram aos brancos experimentarem um fuminho e, como gostaram muito de uma tragada, introduziram o produto do Novo Mundo em Portugal e Espanha. Depois, em outros países do Velho Mundo.

Fumar cigarro era raridade até o final do século 19. Em 1880, cerca de 58% dos usuários de tabaco eram mascadores de fumo, 38% fumavam charuto ou cachimbo, 3% cheiravam rapé e apenas 1% era fumante de cigarro. Nesse ano, o americano James A. Bonsack inventou uma máquina capaz de enrolar 200 cigarros por minuto, o que criou condições para o aparecimento da indústria de cigarro.

Durante a I Guerra Mundial, os soldados recebiam cigarros. Era uma maneira de diminuir a tensão, a ansiedade, e seu uso, que se achava restrito às camadas marginais das sociedades americana e européia, explodiu. Em 1900, o consumo anual americano era de cerca de 2 bilhões de cigarros; em 1930, chegou a 200 bilhões. Após a II Grande Guerra o hábito de fumar se espalhou pelo mundo, envolta em glamour por Hollywood, como símbolo de modernidade.

Nas últimas décadas, no entanto, o fumante passou a ser olhado como criminoso. As leis foram se sucedendo e, cada vez mais duras, até o ponto da proibição total do fumo em locais fechados. Restou a rua, mas mesmo nela o fumante é olhado como um marginal. O Japão chegou ao extremo de considerar crime o ato de fumar. Mesmo na rua é proibido uma tragada. Além de ser multado, o infrator vai preso e fichado.

Todos que fumam e morrem de câncer, o motivo é o cigarro. Agora mesmo aproveitam a morte de Paulo Autran para espalhar aos quatro cantos que o ator morreu por causa do fumo. Os dados, segundo os denunciadores do fumo como mal do século, não mentem jamais: quem fuma tem mais chances de contrair doenças de pulmão que os “normais”; 15% dos dependentes do cigarro morrem de câncer e outros 15% morrem de enfisema pulmonar. E são 25 milhões de fumantes no Brasil. Só não revelam as pesquisas sobre as mortes provocadas por enfisema pulmonar, por câncer e por problemas de coração em não-fumantes.

Não sei o que nem quem está por trás dessa campanha contra o tabaco. São os mesmos que toleram a bebida e combatem a maconha. São os que fumam, bebem e se drogam (drogas legais e ilegais).

Quando Paulo Autran morreu, aos 85 anos de idade e trabalhando, um cínico apressou-se em dizer que foi o cigarro. Só não disse que ele chegou aos 85 anos muito bem em relação aos milhões que morrem antes. Muito antes. E morreu numa idade muito acima da média dos não fumantes. Para concluir: perguntaram a um japonês bastante idoso sobre o segredo de sua longevidade. O centenário japa respondeu, na bucha: “nunca fiz nada do que não gosto”.


*Jornalista, pós-graduado em Filosofia

Diálogo entre Deus e um cientista ateu

História & Sociedade


José Francisco de Moura


O ateu acabara de morrer. Tratava-se de um grande cientista, um biólogo renomado que buscava como um louco descobrir a cura para o câncer. Ele não acreditava em vida após a morte e muito menos em Deus.

Qual não foi sua surpresa ao notar que estava vivo após ter morrido, mas com um outro tipo de corpo. Mas a surpresa não ficou por aí. De repente, viu uma grande luz e ouviu uma voz forte: “Olá, meu filho”. Assustado, o ateu perguntou: “Quem é você?”. “Sou Deus”, disse o ser iluminado. “Então o Senhor existe?”, perguntou o ateu assustado. “Sim, mas você nunca acreditou em mim”. O ateu respondeu: “Não havia provas suficientes. Muitos diziam que o Senhor era um velho rabugento, outros que existiam vários deuses, outros que o Senhor era só uma energia. Ninguém tinha provas de nada, só falação vazia, só interesses materiais, fanatismo e loucura irracional”, completou. “Sim, nisso eu tenho que concordar com você”, respondeu Deus.

Entusiasmado com o papo, o cientista ateu, sempre com fome de conhecimento, foi logo perguntando: “O senhor criou o Universo? Os evolucionistas estavam errados?” . Deus olhou com compaixão para o ateu e disse: “Eu criei os mecanismos para que a evolução se desse e o mundo se auto-regulasse. Criacionistas e Evolucionistas estão errados e certos ao mesmo tempo”, respondeu Deus. Encantado com a resposta, o ateu disse: “Mas se o Senhor criou tal complexidade que é o universo o senhor é um grande cientista, o maior de todos. Sabe, então, que necessitamos de provas e evidências para chegarmos às verdades”. “Sim, eu sei”, completou Deus.

Querendo continuar a se justificar por não ter acreditado em Deus quando vivo, o cientista ateu continuou a dar vazão aos seus argumentos. “Olha, Senhor, lá na Terra sempre teve muita gente se dizendo seu intermediário e falando em seu nome. Criaram mil e uma religiões e templos onde dizem que o Senhor está. Muitos cobram dízimos dos fiéis dizendo que é para a sua casa”. Deus, então, olhou sério e disse: “Meu filho, se eu criei o universo você acha que eu preciso de dinheiro, essa coisa suja que vocês inventaram e que por ele fazem qualquer atrocidade com seus irmãos?”. “Claro que não”, completou o já encantado ateu. “Mas e os que estão lá falando em seu nome? E os que afirmam que só quem segue a fé deles chegará ao Senhor?”, insistiu o ateu. “Para esses Eu tenho o pior dos castigos. Vão ficar muito tempo com o meu parceiro, o Diabo”.

O ateu quase caiu da cadeira de plasma onde estava ao ouvir aquilo. Perguntou quase imediatamente: “O Diabo existe? Ele é seu parceiro? Sempre ouvi dizer o contrário’. “Sim, ele existe, ele me poupa de conviver com muita gente detestável, dentre elas os que dizem falar em meu nome sem que eu tivesse dado permissão para isso e sem que se preocupassem verdadeiramente em melhorar os corações e mentes. Eu dei a razão para vocês para que a usassem e não para que criassem mil superstições em meu nome. Aqueles que ajudaram a suprimir a razão das mentes em nome de uma fé louca e cega em algo que nem provas tinham da existência serão os mais cobrados”.

“E quanto a nós, cientistas? Na Terra 91 % dos cientistas não acreditam no Senhor”, perguntou o ateu de forma tensa. “Se não acreditaram em mim falta de provas, por desconfiarem dos mercadores da fé que falam em meu nome, não tem problema. Se forem bons com o próximo e tentaram ajudar a humanidade com suas pesquisas, então são como se tivessem acreditado”, responde Deus.

O ateu aliviado, então, perguntou: “Então posso ficar por aqui? Posso ficar próximo do Senhor?”. “Sim, meu filho, tenho aqui um lugar para que você continue suas pesquisas, agora em um outro nível”. E abriu uma porta onde centenas de milhares de outros cientistas trabalhavam, uma espécie de laboratório celeste. “Uau”, gritou o cientista: “Vou poder continuar meu trabalho. Imaginava que o paraíso era um tédio só, um lugar que tinha de tudo que precisávamos e que só teríamos que ficar louvando o senhor eternamente. Alguns diziam que tinham até virgens esperando por eles”. Deus riu e completou: “Você acha que minha vaidade é tamanha que preciso que fiquem eternamente me louvando? Você acha que eu criaria um paraíso para vagabundos, um lugar onde ninguém trabalha? Aqui se trabalha, e muito. Só que não há cansaço. Quanto às virgens e outras coisas que inventam ter por aqui, é porque essa gente da Terra transfere para o cá seus anseios materiais e carnais, seus piores desejos”.

Impressionado com a resposta, o cientista entrou na sala e foi logo se ambientando com os colegas. Em pouco tempo, feliz e contente, já estava envolvido em mil tarefas celestes. Aqueles que mais falavam de Deus não foram vistos no paraíso. Os cientistas apenas imaginavam onde deviam estar.




*Professor de História e Doutor em História da Grécia

domingo, 16 de dezembro de 2007

No way out

X-Tudo

Cacau

Quando Nixon tentou a reeleição na década de 70, houve um instante em que o Partido Democrata quis desmascará-lo taxativamente, acusando-o de mentiroso. Quase o conseguiu. Teria sido um erro. Não que Nixon não demonstrasse sê-lo, mas porque em propaganda, funcionam estímulos e não respostas. Dizer: “ESTE HOMEM É MENTIROSO”, debaixo de uma foto em close do Nixon seria a resposta a ser obtida e, certamente, teria causado repulsa em, no mínimo, metade do eleitorado.

Ao invés disso, sabiamente, o que se escreveu debaixo da caraça de nariz arrebitado do ex-presidente foi: “VOCÊ COMPRARIA UM CARRO USADO DESTE HOMEM?”

O resultado foi o que se viu.

Mal comparando, você compraria um carro usado do Eurico Miranda? Do Paulo Maluf? Do Delúbio Soares? Do... Deixa pra lá.



*Publicitário